Apesar dos recentes casos de dengue ocorridos na cidade do Rio de Janeiro, há cerca de três anos não há uma grande epidemia causada por esse vírus na região. Isso, no entanto, pode indicar um aspecto negativo: um novo surto da doença é iminente para os próximos meses. O professor Marcos Junqueira do Lago, do departamento de pediatria da Faculdade de Medicina da Uerj e infectologista da Sociedade Brasileira de Pediatria, aponta que essas chances são razoáveis: “Eu arriscaria dizer que nós estamos numa época de médio a alto risco de epidemia, porque vamos entrar no quarto ano sem  uma grande epidemia. E isso é um ciclo sem fim”.

Essa hipótese em relação à dengue se dá uma vez que a doença possui quatro sorotipos. Esses vírus são da mesma família e não possuem uma diferença de gravidade, mas apresentam pequenas diferenças entre si. Quando uma pessoa é infectada por um desses tipos da dengue, ela pode tornar a ter a doença, mas não o mesmo tipo. O professor Marcos explica:

“São sorotipos irmãos, mas é como se um tivesse olho claro e o outro tivesse olho castanho para o sistema imunológico. Ele consegue reconhecer e obter imunidade para um sorotipo específico, e não para o outro. Não é possível se contaminar com o mesmo sorotipo, mas enquanto o paciente não for contaminado por todos os tipos, ele vai ser suscetível a ter alguma dessas variações de dengue”.

Em 2012, cerca de 80% da população carioca foi afetada pelo tipo 2 da doença, mas não pelos tipos 1, 3 e 4. Dessa forma, daqui a aproximadamente seis anos, segundo o professor, haverá uma população suscetível ao tipo 2 novamente, já que a sociedade vive em constante movimento, com parte chegando e saindo da cidade. Durante esse intervalo, no entanto, os outros tipos que contaminaram o Rio de Janeiro no passado podem contaminar novas pessoas hoje. De tempos em tempos, haverá uma população suscetível à dengue.

O professor ainda afirma que é impossível acabar com o mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue, e que não há como evitar surtos dessa doença no Rio de Janeiro, ainda que a cidade tenha suporte para tratá-la:

“O Rio é um lugar muito favorável para qualquer tipo de mosquito. Acabar com o Aedes egypti, hoje, é uma hipótese que não vale a pena ser trabalhada. A gente procura diminuir a população do mosquito. Além disso, o Aedes aegypti é portador do vírus até morrer e os filhotes da fêmea portadora também vão ser portadores. Assim, sempre vai ter mosquitos contaminados e epidemias de dengue aqui. Porém, mesmo que o sistema de saúde carioca seja precário, nós temos muita experiência com dengue. Se tiver um surto, estamos preparados para enfrentar”.

Existe, por sua vez, uma vacina contra a dengue em processo de liberação. No entanto, ela ainda possui problemas a serem revistos. Essa vacina foi produzida com uma amostra do vírus da Ásia e os sorotipos são um pouco diferentes dos nossos. Há uma dúvida se a população brasileira responderá adequadamente a todos os subtipos. Além disso, a vacina não seria, a princípio, produzida para o serviço de saúde pública, até porque não haveria doses suficientes:

“É um dilema muito complicado, pois produzir uma vacina demora, ainda mais em grandes quantidades. Só quem tivesse dinheiro teria a vacina. Também existe um receio de que haja uma super infecção de um sorotipo só, se todos não forem iguais aos da Ásia. Há uma vacina em fase de liberação, mas como ela será introduzida não se sabe. Por outro lado, (com a vacina) a população não vai mais ligar para os cuidados com a proliferação do mosquito” - acrescenta o professor Marcos.