O bairro da Freguesia vem sofrendo, nas últimas décadas, um processo de transformação acelerada. Um dos bairros mais valorizados de Jacarepaguá,ganhou um grande número de construções imobiliárias, o que gerou o aumento populacional e impactos ambientais.

Fundada em 1961, a Freguesia foi o primeiro bairro planejado na baixada de Jacarepaguá, na zona rural da cidade do Rio de Janeiro. Constituído bairro independente em 1981, tornou-se um dos locais mais valorizados da cidade com o comércio em pleno desenvolvimento após a construção de shoppings, galerias, diversas lojas e supermercados.

Maria das Dores, de 65 anos, mora no bairro há 63 anos. Veio de Portugal com a família em busca de novas condições de vida. Ela conta que nem sempre a Freguesia foi tão movimentada. “O bairro era muito diferente do que é hoje. Parecia uma roça, com muito capim e mato. Havia barro por todas as partes e não tinha calçamento nas ruas. Existiam algumas chácaras. Não havia muitas casas, como atualmente, e a gente conhecia quase todo mundo. Era uma vida tranquila e sem muito barulho. Hoje, quando precisamos de alguma coisa, podemos comprar pertinho de casa, pois temos muitos comércios. Naquele tempo, a gente quase não ouvia notícias de assalto ou violência. Era uma fase mais tranquila, onde a gente podia conversar calmamente na rua por horas, de dia ou de noite, que não havia perigo. Hoje, precisamos prestar atenção em tudo e em todos.”

Também morador da Freguesia, Geraldo Marcelino de Almeida vive no bairro há cerca de 35 anos. Veio de Minas Gerais para a cidade do Rio de Janeiro em busca de trabalho. Geraldo conta que quando chegou ao bairro, os comércios eram bem menores do que hoje em dia e o centro da Freguesia não era tão movimentado. “Lembro-me de algumas construções da época que já não existem mais, como o antigo cinema Cisne que existia na esquina da minha casa. Algumas ruas não eram calçadas ainda. Existiam mais árvores e lugares verdes que foram devastados devido às inúmeras construções. Parece que o bairro ficou mais bagunçado, amontoado de pessoas, carros e concretos. Antigamente, para se deslocar de carro de um local para outro, aqui no bairro, era muito rápido. Agora, às vezes, você fica no trânsito por vários minutos, só para circular perto. A quantidade de transportes públicos aumentou, sendo que agora a gente pode deslocar para vários locais que quisermos”.

Geraldo acredita que esse avanço que o bairro obteve no decorrer dos anos foi bastante prejudicial para os moradores, visto que antes a cidade era mais calma e os moradores tinham mais tranquilidade, sem muito tumulto e barulho.

A urbanista Gisela Santana, especialista na área urbana de Jacarepaguá, conta que o bairro passou, nas últimas décadas, por uma grande transformação. Além das construções de prédios na região, devido à mudança da legislação local, o bairro também sofreu diversos outros danos, como alteração climática, grande perda da vegetação e o aumento do tráfego de veículos.

Essas transformações e o crescente aumento populacional ocasionaram grande valorização do bairro. Com isso, empresas responsáveis pelas grandes construções começaram a apostar seus recursos. A Freguesia, hoje, é um dos bairros que mais recebem lançamentos imobiliários na cidade do Rio de Janeiro. O bairro passou de 54.010 habitantes em 2000 para 70.511 em meados de 2010. Hoje tem aproximadamente 101.535 habitantes.

Gisela aponta que esse crescimento urbano gera danos tremendos para a flora e a fauna da região, e a falta de planejamento causa um desequilíbrio para o meio ambiente.  Ela conta que, no bairro da Freguesia, os maiores impactos ocorreram no relevo, pois muitos morros foram cortados. Além disso, também há riscos para a qualidade das águas que acabam virando depósitos de esgotos, devido à falta de saneamento apropriado na região. “O ideal teria sido agir preventivamente na legislação para evitar que tais perdas ocorressem. Depois de muitas reivindicações da população local, o bairro foi decretado como Sítio de Relevante Interesse Ambiental e Paisagístico. Por isso, as edificações precisam cumprir alguns requisitos de afastamento dos limites do lote, preservação de árvores já existentes no terreno, garantia de solo natural e criação de telhados verdes e jardins verticais.”

A urbanista afirma que é possível equilibrar crescimento urbano com sustentabilidade, mas que para isso é preciso consciência e bom senso“É necessário aplicar, na prática, os índices que agregam questões em relação à capacidade que o bairro suporta, como abastecimento, saneamento, transporte e sistema viário, todos já previstos no Estatuto das cidades”.

 A Associação de Moradores do Bairro da Freguesia (AMAF) tem algumas propostas de reflorestamento para as ruas do bairro. Segundo Verônica Beck, uma das integrantes da associação, foram recolhidas mais de 3.000 assinaturas de moradores que estão insatisfeitos com o rumo do desenvolvimento imobiliário que o bairro está tomando. Verônica conta que foram feitas denúncias ao Ministério Público sobre o impacto negativo na vegetação e em relação à qualidade de vida dos moradores.

 Segundo a associação, os danos causados ao bairro foram bastante significativos. Houve a perda arbórea, adensamento populacional, aumento do número de automóveis e, consequentemente, o aumento do número dos congestionamentos na região, da poluição sonora e atmosférica.

Entre 2010 a 2015, a Freguesia concentrava 26.691 novas unidades de prédios, respondendo por 20% do mercado carioca, ganhando até mesmo do bairro vizinho, Barra da Tijuca.

Uma das moradoras do bairro propôs, para Prefeitura, a arborização da Rua Três Rios, por ocasião da comemoração dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro. A proposta gerou grande aceitação entre os demais moradores do bairro. Com isso, os próprios moradores se encarregaram de plantar novas mudas, levando a Secretária Municipal do Meio Ambiente (SMAC) a pedir para que os moradores indicassem novas ruas para o projeto seguir adiante. Em conseguinte, as ruas Mamoré, Araguaia, Geminiano Góes e Joaquim Pinheiro também ganharam novas mudas. “O projeto conseguiu seguir, sobretudo, devido à grande mobilização da população que sempre procura estar presente nas plantações de novas mudas e que cobra das autoridades os replantios e cuidados necessários, além de contestar as irregularidades dos estacionamentos sobre as calçadas e dos empresários selvagens que insistem em derrubar as árvores que “tampam” os seus letreiros ou “tiram” as vagas dos seus clientes das calçadas”.

Além desse projeto que se encontra em andamento, a associação também propôs à prefeitura  a desapropriação dos locais previstos para que haja o aumento da área do Bosque da Freguesia e a criação de espaços de lazer reflorestados no entorno do Rio Sangrador. No entanto, ainda não obtiveram resposta das autoridades.