“A moda tem que ser enxergada além das roupas”, disse Ronaldo Fraga, estilista brasileiro, em uma entrevista à revista Marie Claire. Essa frase dá uma pista do que a moda significa para uma sociedade. Ela indica “modo”, “maneira” e está ao nosso redor. Andando pelo centro de alguma cidade, tendo como exemplo o Rio de Janeiro, olhe para o alto: você encontrará diversidade na aparência dos prédios, dos palacetes e das igrejas. Sabe o que é isso? É um dos exemplos de como a moda  que também pode ditar tendências na arquitetura – muda a paisagem. Presente também na decoração, na música, entre outras áreas, ela consegue refletir os costumes de uma época, ou seja, um modo de vida.

Apesar de algumas pessoas dizerem não ligar muito para esse assunto e acharem que é algo fútil, a moda faz parte das nossas vidas. Falando especificamente do vestuário, a moda estabelece uma comunicação entre você e o mundo. Antigamente, as roupas eram determinantes e separavam as classes uma das outras, no entanto, hoje, vemos uma moda mais plural e representativa, com mais liberdade e opções de escolhas.

Moda durável

Dentre essas opções, temos o slow fashion, termo de origem inglesa, que nada mais é do que moda dita sustentável. Em meio à sociedade de consumo e obsolescência programada do mundo globalizado, em que cada vez mais, e num curto espaço de tempo, descartamos produtos e adquirimos outros, a moda sustentável se torna uma alternativa da produção de massa. Ela tem como objetivo resgatar o valor do produto, já que são utilizados itens não convencionais na fabricação das peças, além do uso de práticas artesanais, de modo que contemple a nossa conexão com o meio ambiente. As nossas escolhas têm impactos profundos na nossa convivência, tanto com as pessoas ao nosso redor quanto com o espaço em que vivemos. A ideia do slow fashion é reduzir os impactos negativos ao meio ambiente causados pela indústria de moda. As peças visam a ser atemporais, favorecendo seu uso duradouro. A qualidade se sobrepõe à quantidade.

Outro aspecto importante da prática da moda sustentável é que ela coopera com a economia solidária, uma forma de empreendimento com base na autogestão, isto é, uma rede socioeconômica, na tentativa de fazer com que todos sejam integrantes da organização. Muitas vezes, essas redes socioeconômicas são localizadas em áreas que necessitam de investimento, gerando empregos. Dessa forma, a relação entre produtor e consumidor é fortalecida e ganha um caráter mais humanizado. Um exemplo disso é a marca Tiê – Moda Sustentável, surgida há 5 anos, que produz uma parte das suas peças dentro de um presídio, em Minas Gerais, contribuindo para a recuperação dos presos. Ursula Carvalho, diretora de operações da marca, conta que a economia solidária é um dos caminhos da sustentabilidade e que prioriza a mão-de-obra local. “É difícil você ter uma atuação efetiva para consertar os danos da indústria da moda no mundo, mas se você começa a agir localmente a gente consegue perceber esse impacto positivo”, conta.

A The Lilled Small Town é outra marca que também demonstra preocupação com o método de trabalho. “Prezamos pela durabilidade dos produtos, o conhecimento da matéria-prima e sua origem, as relações com as costureiras, modelistas e demais pessoas envolvidas na produção, pautadas sempre pelo trabalho justo em todas as etapas. Buscamos ainda o relacionamento próximo e verdadeiro com os clientes, criando, assim, uma aproximação e diversas trocas de conhecimento“, conta Bruna Nesi, criadora e designer da marca. Ela acrescenta que “trabalhar com o conceito do slow fashion é pensar onde e quem faz a matéria-prima, mas também o que acontece depois da venda. Pois dentro do movimento o consumidor não tem o papel apenas de gerar o lucro para a empresa, mas sim de também se preocupar com o uso, a durabilidade, e o próprio desapego da peça, levando, assim, ao questionamento sobre a própria velocidade e necessidade do consumo.”

Materiais e design de baixo impacto

Os materiais usados na confecção das peças da moda sustentável são os que causam menores danos ambientais - algodão orgânico, linho, poliéster reciclado (pet) e até bambu - que os materiais mais rotineiros. Além disso, é comum o reaproveitamento de tecidos. Tudo isso aliando design com sustentabilidade.

“O atual mercado da moda é muito cruel, são criadas obrigações de novidades a cada mês, o que acaba por gerar uma quantidade gigantesca de materiais descartados dentro da indústria têxtil. Essa quantidade é gerada, pois as grandes marcas dão prioridade ao consumo rápido, não se importando com o que fica para trás. A Lilled vê beleza nestes tecidos deixados de lado e cria as peças a partir deles, o que é conhecido como upcycling. A maioria dos tecidos que utilizamos são de fibra natural, como algodão e linho, e procuramos também dar prioridade aos tecidos de produção nacional e local”, diz Bruna.

A respeito de como é pensado o design das peças, Bruna conta que a Lilled possui uma coleção montada com o intuito de durar por diversas estações e que se adapta de acordo com os materiais disponíveis.  “Com isso, a coleção-base que temos foi criada com estudo de moldes de diversas épocas (anos 1980, 1990, 2000...), selecionando características de modelagem que gerem uma ideia atemporal nas peças.” Dessa forma, vemos a versatilidade que há nas peças na moda sustentável.

Uma nova concepção de consumo

Outra marca preocupada com essa questão na hora de elaborar as peças é a Start Movin, que surgiu em 2011. Pedro Ruffier, fundador e CEO da marca, acredita que o consumo de uma moda mais ética poderá evoluir para uma nova concepção sobre o consumo em si. Ele diz que teremos um novo tipo de consumo, mais responsável, tecnológico e simplificado “quando a sociedade perceber que o produto sustentável é o futuro, que o caminho é a redução de excessos”. E é exatamente isso que o slow fashion prioriza: reduzir os impactos negativos com novos hábitos. Pedro aposta que a roupa será o primeiro passo para a mudança de comportamento. “Todos sabemos que o produto sustentável reduz lixo, processos, poluição, desigualdades, ou seja, traz benefícios para a natureza e sociedade, mas o consumo sustentável é mais amplo, pois estimula novos formatos de arquitetura, de alimentação, de design, de estratégias comerciais, de evolução”, argumenta.

A marca ainda tem como identidade o minimalismo, ou como Pedro diz, “o essencial”. “Acreditamos que uma roupa deve ser atemporal, sem que tenha no design a obsolescência programada. Então, projetamos ideias que possam durar”, diz.

O slow fashion é algo que, sem dúvidas, não pode sair de moda. As pessoas que a produzem fazem aquilo que amam de maneira consciente e criativa, causando menos danos ao meio ambiente. É importante remodelar os nossos hábitos e comportamentos de modo que respeitemos a natureza.