A descoberta da sexualidade sempre foi assunto fundamental quando se discute juventude. Questões relacionadas a esse tema, porém, recebem pesos e pontos de vista diferentes quando se trata da comunidade evangélica, a qual, segundo censo do Instituto Data Popular de 2013, já responde por 37,6% da juventude brasileira. Foi com base nisso que a doutora em Ciências Sociais pela Uerj Maria Goreth Santos redigiu sua dissertação “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convêm’: representações sobre sexualidade entre solteiros evangélicos”.

Segundo a doutora, apesar das diferenças internas, “as denominações evangélicas são unânimes em considerar que a prática sexual está limitada ao contexto do casamento monogâmico e heterossexual. A doutrina é clara e inflexível, não há nenhum discurso de que é possível considerar algum desvio. Jovens e adultos solteiros são doutrinados a controlar seus desejos e estimulados a permanecerem puros e castos até o matrimônio, ganhando com isso a verdadeira felicidade, alcançando uma vida espiritual plena e formando uma família nos padrões divinos”.

Por estarem expostos à sociedade fora da comunidade, todavia, muitos solteiros são influenciados pelo que é considerado “errado” aos olhos religiosos. Por isso, a instituição se vale de métodos preventivos e represálias aos fiéis: “Para fazer com que os jovens respeitem a doutrina da pureza sexual, os líderes investem pesado na literatura e na divulgação dos malefícios, tanto social, quanto físico, de um contato sexual pré-nupcial”, diz a socióloga.

A repressão a quem, mesmo com os avisos, não obedece aos princípios religiosos “vai desde o castigo (a exposição pública do ‘pecador’), à vergonha de continuar pertencendo a uma comunidade na qual a sua intimidade foi exposta tão cruamente. A repressão espiritual se dará no momento da culpa, da baixa auto-estima e do abandono”, destaca Maria Goreth.

Em relação à homossexualidade, o consenso entre a maioria das igrejas é que a prática é fruto de uma “sexualidade doentia”, que precisa de cura. Bruno*, de 20 anos, membro da Assembleia de Deus e homossexual,  conta como foi a tentativa de cura da sua homossexualidade na Igreja: ”Quando descobriram que eu sou gay, fizeram uma campanha de oração de sete semanas. Eu tinha de ir às sessões e eles oravam por mim, pela minha cura. Acabou que fui somente a quatro, e me liberaram como se já estivesse curado. Mas não resolveu muita coisa. Por mais que na Igreja se pregue se pôr no lugar do próximo, lá não se faz isso. Eles não conseguem identificar os conflitos e tratá-los de uma forma correta, porque no fundo acreditam que foi uma escolha sua, que você resolveu ser gay e gostar de homem. Então, eles se viram para você e exigem uma mudança como se fosse muito fácil, mas não é.” 

Em contrapartida com a “cura gay” estão iniciativas como a Igreja Cristã Contemporânea, que abrem espaço para a inclusão do relacionamento homossexual nos seus dogmas. Essas igrejas, porém, ainda sofrem muita rejeição, não só dos evangélicos tradicionais, como do movimento LGBT e dos próprios homossexuais religiosos. Bruno é um dos que diz não concordar com a ideologia do templo: “Você escolhe frequentar e acreditar na Igreja. E as evangélicas têm a característica de seguir a Bíblia, que condena essas relações. Então, eu acho errado quererem interpretar o escrito ao seu favor, pois isso é uma forma de distorção. Hoje eu não me sinto tão bem indo aos cultos, e não me sentiria confortável indo em um para gays”.

Em relação à condenação pela comunidade, o jovem diz: “As pessoas não são ruins, muitas são minhas amigas, gostam de mim e querem meu bem. Mas elas não costumam questionar o que a Igreja fala, então não entendem muito. Vão tentar te ajudar do jeito que acham correto. O discurso em geral é que o que eu sou não é certo, e que vão orar por mim para que eu mude. Há uma condenação, mas particularmente, por não ser assumido na igreja, não me sinto tão condenado. Mas, tenho certeza que se eu me assumisse iria ouvir muitas gracinhas. Na minha concepção, quem entende o que Jesus falou não é homofóbico. Jesus disse: ”Eu odeio o pecado, mas amo o pecador”, então, por mais que achem que você está fazendo algo errado, não cabe a ninguém te julgar, te tratar e desejar mal.” No que diz respeito à condenação por Deus, Bruno não tem dúvidas: “Deus nos ama acima de tudo e entende nossos erros e nossas lutas. Ele não vai te condenar, porque ele sabe que o ser humano é passível ao erro. Eu não me sinto julgado, nem condenado, e acredito que  Deus me ama acima de tudo."

*Nome fictício

Para ler a dissertação na íntegra, acesse o site:

http://www.bdtd.uerj.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1375